CARTILHA SUGESTIVA:Como preparar uma criança pequena para a aplicação regular de injeções?
- Psicóloga Jane Brito Lopes

- 27 de ago. de 2021
- 11 min de leitura
Atualizado: 5 de set. de 2021
CARTILHA SUGESTIVA:Como preparar uma criança pequena para a aplicação regular de injeções?

Esta cartilha nasceu, quando o diagnóstico de uma menina, com Diabetes tipo 1, precisou mobilizar seus pais de forma gentil, firme e respeitosa. A pedido deles, estou a disponibiliza-la a outras famílias, com esta mesma realidade, esta possibilidade de um caminho.
Sabemos que a situação de uma criança ter de submeter a injeções em períodos de tempo regulares, pode não ser aceita com muita facilidade. Com esta cartilha, buscamos tornar um pouco mais leve este processo de aceitação, sempre lembrando de que temos de considerar e respeitar as particularidades de cada criança. Vamos começar!
1° Passo
1. Procure qualificar o entorno de seu filho(a), seja ele familiar, escolar ou social, de forma a não ocorrer o reforço de emoções, comportamentos e pensamentos ligados a sensações de medo ou fobia de injeções.
Aquelas pessoas que trazem falas que induzem ao medo, do tipo “Que horror, odeio injeção” ou “Coitadinha de você!” não irão ajudar o seu filho. Elas reforçam ainda mais este medo e a ansiedade. Oriente-as para que elas passem a ser colaboradores e modelos saudáveis.
2. Não assuste sua criança, nem nesta situação ou outra qualquer;
3. Seja verdadeiro em relação responder as perguntas que ela venha a lhe fazer, em decorrência desta nova realidade de ter de tomar injeções regulares, limitando-se apenas ao que lhe foi perguntado. Assim você poderá manter a relação de confiança entre vocês. A relação de confiança entre os pais e ou cuidadores principais é importantíssima!
Ex. Seu filho lhe pergunta, com feições de medo, se terá de ser furado com seringa de injeção, várias vezes. Na sua resposta, é importante que a sua comunicação não verbal, isto é, olhar, feições da face, repassem uma sensação de confiança e tranquilidade. Por exemplo: “A agulha vai atravessar a sua pele, da mesma forma como acontece quando você toma vacina ou faz um exame de sangue. Só que de uma forma bem mais superficial, sob a sua pele apenas. Eu sei que isso pode lhe causar algum desconforto, no início, mas vai ser importante para ... (complete explicando, de forma compreensível a esta criança, um pouco sobre o motivo desta aplicação e complete com algo acolhedor, como “Mamãe e o papai vão estar você.” (Sorria e/ou demostre uma comunicação não-verbal tranquila, firme e acolhedora para sua criança, mas não minta);
4. Acolha a emoção que possa vir a surgir, sem discriminação, mas, com uma postura serena de escuta e acolhimento, em relação ao sofrimento que a sua criança demonstra ter. Mantenha a sua serenidade. Lembre-se de que todas as emoções devem ser acolhidas, ouvidas e redirecionadas, mas isto não acontece com os comportamentos. Explique sobre a necessidade da intervenção com o uso das injeções regulares, fale da necessidade de cuidado à saúde, mostre que você está aberta(o) a ouvi-lo(a) e acolhê-lo(a) em qualquer situação, mas que, também, está pronto(a) para sugestões de como lidar com esta situação ou RESOLVER ESTA SITUAÇÃO de seu filho(a) ter de usar “injeções regulares”. Estimule que a sua criança se expresse, mas com afetividade, acolhimento e tranquilidade. ESCUTE A SUA CRIANÇA! Crianças pequenas podem ter dificuldades em pensar em possibilidades e, nós, pais podemos, de uma forma gentil e respeitosa, oferecer algumas ideias. Por exemplo:
a. Como lidar com a ansiedade ou o medo, que possa estar acontecendo agora?
b. Como fazer com os pensamentos e sentimentos que não são bons?
c. Podemos, também, promover momentos de diálogos sobre as experiências onde houve sensação de medo ou fobia e, também, sugerir soluções a este respeito. Obs.: Aqui falaremos, adiante, sobre a técnica de dessensibilização sistemática, que é uma forma de exposição graduada, conforme a necessidade da criança ou adulto. Daremos sugestões de técnicas de distração e de “corte”;
d. Uso da técnica da antecipação uns minutos antes da aplicação, relatando que farão o procedimento. Perguntando se ele(a) precisa relaxar um pouco antes. Obs.: Faça junto algumas técnicas de redução da ansiedade. Mostre serenidade e firmeza no seu acolhimento. Fale do quanto é importante a colaboração do seu filho(a). Fale que está e estará a seu lado;
2° Passo – Lidando com a ansiedade e o medo
Tenha cuidado para notar se o medo ou a ansiedade do seu filho é aprendida pelo modelo de um familiar ou pessoa de seu relacionamento. Oriente esta pessoa a agir de outra forma;
1. Explique que a ansiedade e o medo têm uma função de nos proteger de algum perigo, que possa vir a acontecer, mas que, nem sempre, estes perigos podem ser reais. Peça que seu filho(a) fale deste medo – “E o que mais?” Mostre serenidade e firmeza nesta escuta. A seguir, fale das muitas crianças, que como ele(a), também precisam do uso regular de injeções e que, algumas, aprenderam a fazer a aplicação, quando ficaram maiores. Apresente fatos, como vídeos, fotos, sempre respeitando o que a sua criança trouxer e a expressão das suas emoções.
2. Ensine técnicas de manejo da ansiedade, como, por exemplo:
a. A técnica da mãozinha – A criança abre a mão direita ou esquerda e, com a mão oposta, faz o movimento vertical de contorno de cada dedo, inspirando lentamente, na subida, para por uns 2 segundos na ponta de cada dedo, expira na descida. Observe o desenho abaixo, ou faça o mesmo movimento com uma estrelinha de EVA:


a. Você pode pedir que sua criança deite de barriga para cima e sinta a sua barriguinha encher e esvaziar, a medida em que ele(a) inspira e expira. Se quiser, pode colocar um desenho ou um bichinho de estimação sob a barriga da criança;
b. Brinquem de descrever o que existe em seu redor, detalhadamente. Aceite que a ansiedade vai acontecer, é um fato normal, podemos, portanto, respirar, usar este ou outro recurso para redução da ansiedade.
c. Use um termômetro da calma, que marca de 0 a 10. Zero – “não estou nem um pouco calmo(a)” e 10 “estou totalmente calmo(a) e sem nenhuma sensação de ansiedade;
d. Ensine seu filho(a) a nomear as suas emoções.[1]
3° Passo – O que fazer com os pensamentos e emoções que não são bons?
Ensine seu filho(a) que pensamentos e emoções que não são bons podem acontecer. Algumas vezes, eles podem nos deixar aprisionados e isto não nos ajuda. Então, o que fazer?
a. Podemos criar um pote de pensamentos bons para nos ajudar a lidar com algum momento que não nos seja bom, como, por exemplo, tomar injeção. Escrevemos ou desenhamos um pensamento bom, capaz de nos deixar melhores e mais fortes e o colocamos no nosso pote. A mamãe e o papai podem dar outras sugestões;
b. Lembre a sua criança de que um pensamento é só um pensamento, no meio de muitos outros que já tivemos e podem ter sido bons ou não. Brinque de lembrar quando surgiu bons pensamentos e peça que seu filho(a), fale um pouquinho mais sobre eles;
c. Podemos ir em pensamento para o nosso lugar especial:
[1]Vide outros manejos de mindfulness, para que a criança fique em tempo presente, reduza a sua ansiedade, aprenda e nomeie as suas emoções positivas e negativas, fazer mudança de estado positivo e negativo, usar o termômetro de “0 a 10” e muito mais com o Livro “Treinamento da Flexibilidade: Quando nós e nossas crianças enlouquecemos”, autora Psicóloga Jane Brito Lopes, Editora Sinopsys, 2020, Novo Hamburgo - RS

4° Passo: Começando a usar a dessensibilização sistemática + Técnicas de distração e de “corte”, para ajudar nossa criança a aceitar as injeções regulares.
Agora, que já trabalhamos a ansiedade, o medo e a regulação emocional dos pensamentos que não são bons, do nosso filho(a), vamos entrar um processo de dessensibilização sistemática do medo real e/ou ansiedade que ainda possa estar continuando a prejudicar a aplicação regular de injeção, na nossa criança, em virtude de uma recomendação médica essencial.
Fique atento(a) que toda emoção da nossa criança deve ser acolhida, ouvida com gentileza, e firmeza. Procure tornar a sua comunicação não verbal o mais tranquila possível, serena e firme. Volte a trazer que alguns comportamentos precisam acontecer, como o de ter de tomar injeções regulares, por que são necessários a saúde e que, “podemos pensar juntos em como tornar este momento de tomar a injeção num momento melhor ou, quem sabe, menos ruim”.
Certifique-se que a sua criança está tranquila, sem ansiedade. Se for preciso, vá aos passos anteriores e faça a ação que for adequada. Ouça o que a sua criança lhe trouxer e mantenha-se questionando. Procure direcionar a sua conversa para listarem o que é pior em relação a este medo ou pavor, ou o que surge como ruim, pela situação de seu filho saber que terá de tomar injeções regulares. Liste cada uma delas e o(a) ajude a identificá-las, caso seja preciso. Você pode ajudá-lo(a) nesta tarefa, sempre numa postura de acolhimento. Feita a lista, pontuem como “1” a ativação emocional de menor medo e com “10” a ativação pior de lidar, a mais assustadora. Identifique as pontuações intermediárias. Exemplo:
1 - Ver foto ou figura da seringa de injeção
2 - Saber que a seringa está no móvel da sala;
3 - Olhar a seringa dentro da sua embalagem
4 -Tocar na embalagem da seringa
5- Ver encherem a seringa com a medicação
6 -A seringa estar cheia
7 - Saber que é a hora de tomar
8 - Sentir tocarem na minha pele
9- Ter pessoas me segurando
10- Sentir a picada da agulha
Pronto fizemos a nossa hierarquia do medo e vamos trabalhar no medo menor até o medo maior. Não importa quantos itens tiver, mas, sim, que estejam pontuados em ordem decrescente.
4.1. Trabalhando o primeiro medo:
Você pode convidar o seu filho a trabalhar só o primeiro medo. Não fique mostrando o restante da lista, para não chegar a causar ativações desnecessárias. É só o primeiro medo que iremos trabalhar agora e é apenas ele que precisa ser mostrado para a nossa criança;
1. Ver a foto ou figura da seringa de injeção: Procure na internet fotos de injeção ou de crianças tranquilas tomando a sua injeção. Espalhe as fotos numa mesa, mostre o termômetro da calma e pergunte: “De 0 a 10, onde “0” você está muito mal e “10” você está totalmente calmo(a) e bem, como você se sente agora, olhando estas fotos?”. Podemos brincar de colorir o desenho da injeção ou de fazer caras e caretas engraçadas nele ou um bigode, uma sobrancelha, uma pinta e muito mais.
Se quiser, pode constatar que algumas crianças já aceitam tomar injeções e que você sente que seu filho(a), também, conseguirá, mesmo que não seja a melhor coisa do mundo! Não force nada, não rotule, não o(a) compare a outras crianças, apenas deixe livre a manifestação da sua criança, mostrando acolhimento, firmeza e segurança.
Você pode, em alguns momentos do dia, mostrar uma foto ou outra ou, até pedir que ele(a) diga qual é a melhor de olhar e qual é a pior. Quando a sua criança estiver sentindo-se segura em olhar essas fotos, convide-a a vencer o desafio número dois:
2. Saber que a seringa está no móvel da sala:
Explique para seu filho que a seringa está no móvel da sala e nesta etapa ele só precisa saber disso. Pontue com o termômetro da calma, conforme já foi explicado. Vencida esta etapa, passe para a seguinte, sucessivamente, onde a sua criança vai observar cada fato listado, que ela descreveu e pontuou como ativador. Você vai medir a sua calma, até que ela se sinta bem regulada. Faça este procedimento, nesses mesmos moldes, até o item n° 7.
3. Começando o item 8 – Sentir tocarem na minha pele:
Neste momento fale com a sua criança que estamos mais perto de vencer o seu medo, pavor ou ansiedade. Lembre-se de que algumas crianças podem até vir a desmaiar por estarem numa ansiedade muito alta, portanto, é importante vencermos, cada etapa, com cuidado, e, se preciso for, volte a uma etapa anterior ou reforce um manejo de ansiedade.
Não existe uma regra padrão de como fazer a dessensibilização sistemática do medo da sua criança, pois cada um(a) é alguém único, com uma forma de pensar, sentir e reagir as suas experiencias de vida pessoais. Vocês terão listas diferentes na hierarquia do medo, umas maiores, outras menores, mas o mais importante é respeitar o tempo da sua criança, de forma a chegarmos numa resolução de problema tranquila e não traumática.
Faça seus filhos respirarem, quando for preciso, para reduzir a sua ansiedade. Vamos, agora, começar a toca-los com a ponta dos dedos, delicadamente, nas áreas do corpo onde a nossa criança pode vir a ter as aplicações de injeção. Use o termômetro da calma e quando sua criança estiver com uma regulação emocional dentro do normal, convide-a a fechar os olhos, enquanto você faz estes pequenos toques com o dedo. Pode ser que ela tenha receio. Respeita a emoção do seu filho(a), tente resgatar a sua confiança, de forma que ele(a) possa permitir que você faça estes pequenos toques sem ele(a) estar olhando. Mostre que não há nada nas suas mãos, nem próximo a você e o seu toque é, apenas, com a ponta dos dedos. Fale da confiança e NÃO QUEBRE ESTE VÍNCULO QUE ESTAMOS A DESENVOLVER. Meça a calma, com o “termômetro”. Talvez possa ser preciso ficar um pouco mais nesta fase ou voltar a alguns exercícios para ansiedade. Tudo bem! Respeite a necessidade da sua criança! Vencida esta etapa, vamos para o passo seguinte!
4. Ter pessoas lhe segurando:
Explique para o seu filho(a) que é possível não ter pessoas lhe segurando, mas que vai ser preciso que ela se comprometa a ficar quieta, como as crianças das fotos mostradas no item n°1. Explique novamente que ele(a) ter de tomar a injeção regularmente terá de acontecer e é por isso que estamos pensando em como fazer isso da melhor forma. Se seu filho não quiser mais fazer nada e sair brabo(a), respeite e explique que “questões de saúde” não podem ser negociadas, mas estamos juntos para solucionar isso, da melhor forma. Diga que você confia nele(a), mas, esta será “batalha de heróis”, que tem de ser vencida! Peça “confiança” de forma firme e acolhedora!
5. Sentir a picada da agulha:
Antes de iniciar este item, explique que este é o momento onde ele(a) terá de ser MUITO CORAJOSO(A) e que você acredita que ele(a) vai conseguir muito mais ainda. Sorria pra sua criança, de forma a tranquiliza-la. Convide-a a pegar um palito de dente e firmá-lo contra a sua pele. Explique que será um desconforto com um pouco mais de intensidade, mas que pode ser tolerado, em nome da saúde. Explique que talvez agora ele(a) talvez não consiga sentir o quanto estas injeções regulares serão importantes, mas que por amor, um amor grande e bonito, vocês estão juntos, para fazerem o melhor para ele(a), mesmo que seja aceitando um pequeno desconforto da entrada da agulha. Fale das muitas crianças que passam por isso, a cada dia, para terem saúde e ficarem bem e fortes num futuro próximo. Seu filho(a) é uma dessas crianças, também. Reforce o quanto você acredita que “Vamos conseguir vencer tudo isso, igual as outras crianças que já conseguiram!”
6. Hora da injeção:
Este é um momento importante, porque a sua criança lhe acompanhou, durante todo este processo, sendo honesto e verdadeiro. Uma sugestão é que combinem de alguém ficar na frente da criança, cantar com ele(a) uma música ou falar uma sequência de número ou outra ideia que distraia a sua criança. Seja criativo nisso. Explique que em alguns momentos, você pode apenas encostar um pequeno palito ou o dedo, como fizeram antes, mas que precisa muito que ele(a) confie em você. Então, enquanto a mãe ou pai segurarem as suas mãozinhas, na brincadeira e/ou vocês cantarem, iniciem com o toque, seja ele com o palito ou o dedo. Repita este processo mais vezes, de forma que sua criança vá sentindo-se mais à vontade!
Caso haja ansiedade, pare. Faça exercícios de respiração e, em um momento, onde você sinta que será adequado, com muito cuidado, faça a primeira aplicação da injeção. Perceba que será um momento onde a sua criança estará entretida com uma música, segurando as mãos do papai ou da mamãe, mas estará consciente de que aceitou este momento, porque ele é preciso e não pode ser adiado.
Reforce o comportamento do seu filho, expressando seu sentimento de realização em ver o quanto ele(a) foi ou está sendo corajosa e forte. Expresse tranquilidade.
Obs.: Caso surja situações onde a sua criança não queira passar para o passo seguinte, explique que esta é uma situação que precisa acontecer, mas que você precisa dela para que isto aconteça, por questões de saúde. Explique que nenhum papai ou mamãe podem deixar de fazer o melhor pelo seu filho(a), mas que você precisa dela para isso! Lembre das situações onde ele(a) fez vacinas e exames de sangue e saiu-se muito bem!
Então, acolha sempre as emoções que surgirem, mas não os comportamentos que não podem ser acolhidos (como o de não tomar a injeção). Coloque seu filho neste processo de resolução de problemas, respeitando seu sentimento e o tempo que ele(a) precisam para dessensibilizarem este medo que lhes causa tanto pavor! Dê-lhe a opção de escolher o local da aplicação da injeção. Estimule o uso do seu bichinho de estimação ou seu super-herói ou sua princesa favorita para ficar a seu lado e lhe dar ainda mais força neste momento! Seja criativo(a)! Mostre que um pensamento é só um pensamento e podemos soltá-lo e visualizá-lo se afastando como nuvens que se perdem no céu!
E tudo o que é feito com amor, assume um significado bom! Confia! Fica bem! Até a próxima!
Um presente para você: O arquivo em PDF:
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Psicóloga Jane Brito Lopes _ CRP 07/19003
Agosto/2021






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